As sessões de 2014 serão sempre às quartas-feiras, no auditório do CSE

quarta-feira, 19 de março de 2014

Março: Dia 26 - Augusto Boal e o teatro dos oprimidos


PROGRAMAÇÃO

SESSÃO OUTONO

MARÇO

Dia 26/03/14
Quarta-feira
Auditório do CSE
18:30 h

Augusto Boal e o teatro do oprimido

2011
Diretor: Zelito Viana
Gênero: Documentário
País: Brasil
Duração: 62 min

Sinopse

O dramaturgo e escritor Augusto Boal alcançou a fama após desenvolver as técnicas do que passou a chamar de Teatro do Oprimido, que tem por proposta romper o imobilismo do espectador de forma a chamá-lo a interagir com a história representada no palco. Paralelamente, Boal teve grande participação política durante a ditadura militar, o que fez com que fosse preso, torturado e exilado.

Programação 2014: Sessão Outono - Março/Abril/Maio


SESSÃO: OUTONO

PROGRAMAÇÃO

MARÇO

Dia 26/03/14
Quarta-feira
Auditório do CSE
18:30 h

AUGUSTO BOAL E O TEATRO DOS OPRIMIDOS

2011
Diretor: Zelito Viana
Gênero: Documentário
País: Brasil
Duração: 62 min


Sinopse

O dramaturgo e escritor Augusto Boal alcançou a fama após desenvolver as técnicas do que passou a chamar de Teatro do Oprimido, que tem por proposta romper o imobilismo do espectador de forma a chamá-lo a interagir com a história representada no palco. Paralelamente, Boal teve grande participação política durante a ditadura militar, o que fez com que fosse preso, torturado e exilado.

ABRIL

Dia 09/04/13
Quarta-feira
Auditório do CSE
18:30 h

TAMBIÉN LA LLUVIA

2010
Diretor: Icíar Bollaín
País: Espanha
Duração: 103 min


Sinopse

Cochabamba, Bolívia, ano 2000. Sebastián (Gael García Bernal) e Costa (Luis Tosar) propõe fazer um filme sobre Cristovão Colombo e o descobrimento da América. Enquanto Sebastián, o diretor, pretende desmitificar o personagem apresentando-o como um homem ambicioso e sem escrúpulos; a Costa, o produtor, só importa-se ajustar o filme ao modesto recurso de que dispõe; precisamente por isso escolhe Bolívia, por se um dos países mais baratos e com maior população indígena da América do Sul. O filme é rodado em Cochabamba, onde a privatização e a venda da água, para uma multinacional, espalha entre a população um mal-estar que fará estourar a tristemente famosa Guerra Boliviana da Água (abril de 2000). Quinhentos anos depois do “descobrimento” da América, paus e pedra se enfrentam de novo ao chumbo e a pólvora de um exército moderno. Mas dessa vez não se luta por ouro, mas pelo mais imprescindível dos elementos vitais: a água.

Dia 23/04/13
Quarta-feira
Auditório do CSE
18:30 h

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

1987
Diretor: Francesco Rosi
País: Itália/França
Duração: 109 min


Sinopse

Em uma pequena aldeia da Colômbia, Santiago (Anthony Delon) é assassinado com uma faca, o que não provoca o espanto de ninguém. Os irmãos Vicario declararam abertamente que o matariam, em troca da honra perdida da irmã deles. As coisas são resolvidas dessa maneira lá, nada nem ninguém poderia evitar a tragédia. O enredo dramático de uma vingança sangrenta foi baseado em um acontecimento real, de um amigo de Gabriel Garcia Márquez na década de 50.

MAIO

Dia 07/05/13
Quarta-feira
Auditório do CSE
18:30 h

BOLÍVAR, EL HOMBRE DE LAS DIFICULTADES

2013
Diretor: Luis Alberto Lamata
País: Venezuela
Duração:116 min


Sinopse

Conta-se pela primeira vez a vida de Simón Bolívar desde a perspectiva do homem, não do herói ou do prócer senão do ser humano; com suas debilidades e angustias que o levaram a pensar até na morte. O filme mostra um dos anos mais dramáticos da vida do Libertador, entre maio de 1815 e maio de 1816, onde revela-se ao homem sem uniforme, ao homem que sofreu o exilio na Jamaica, no meio da solidão e a penúria de um jovem que acreditava que havia fracassado.

Dia 21/05/13
Quarta-feira
Auditório do CSE
18:30 h

REVOLUCIÓN

2010
Diretores: Mariana Chenillo, Fernando Eimbcke, Amat Escalante, Gael García Bernal, Rodrigo García, Diego Luna, Gerardo Naranjo, Rodrigo Plá, Carlos Reygadas, Patricia Riggen 
País: México 
Duração: 106 min


Sinopse

Revolução é um trabalho coletivo que através de dez histórias cria uma visão contemporânea sobre a Revolução. Não necessariamente um olhar ao passado ou ao caso histórico do México, senão a construção de uma série de aproximações diversas ao conceito de revolução seja como fenômeno social ou pessoal desde o presente. Esta dezena de histórias tentam buscar uma perspectiva plural e contemporânea da Revolução Mexicana. Cada uma delas recupera o término revolução, para propor uma aproximação singular desta ideia que sobrevive na consciência coletiva, a partir dos universos formais e estéticos dos seus diretores.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Esconderse En La Flor


Esconderse En La Flor

Ali Primera

No me pidan poemas de amor
cuando quiero cantar la verdad
es la vida la que hay que enfrentar
yo no puedo esconderla en la flor

"Los hombres que caminan
mirando al suelo y temiéndolo al sol
una mano estirada
como mostrando el hambre
y el frío que corta los harapos
de los pobres del mundo
para bañar su cuerpo
no puede ser un poema de amor"
No me pidan poemas de amor
cuando quiero cantar la verdad
es la vida la que hay que enfrentar
yo no puedo esconderla en la flor

"El niño que amamanta
en las tetas resecas
de la madre del tiempo,
con canciones de lucha
quiero verlo crecer, con canciones de lucha
con canciones de pan
y por menos sufrir
le cantaré a los hombres
con guitarra y fusil.
Yo me siento feliz
con mi canto
porque son manos de obrero
y ellas quiero ser yo
las plantas de los pies
del que anduvo descalzo
de tanto andar el mundo
se volvieron canción"


No me pidan poemas de amor
cuando quiero cantar la verdad
es la vida la que hay que enfrentar
yo no puedo esconderla en la flor

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

54º Festival Internacional de Cine de Cartagena de Indias

13 a 19 de Março



O Festival Internacional de Cinema de Cartagena de Indias, na Colombia, realizará sua 54º edição de 13 a 19 de março. Monika Wagenberg, Directora FICCI, comenta que na edição passada conseguiram encher as salas durante sete dias e ofereceram um total de 290 projeções com um total aproximado de 100.000 espectadores. A aposta pelo aumento do programação continua este ano com a adição de novas salas de Cine Colombia no Centro Comercial La Castellana. Além disso, todo o festival se mantém gratuito com acesso prioritário a credenciados.

O Festival

Em 1959, um grupo de empresários e personalidades do mundo cultural de Cartagena, liderado por Víctor Nieto, inicia os contatos com a Federação Internacional de Produtores de Filmes (FIAPF), através da Embaixada da Colômbia em Paris, com o fim de organizar um festival internacional de cinema, aproveitando as vantagens comparativas oferecidas por Cartagena, nova sede de desenvolvimento turístico nacional, graças a suas fortalezas históricas e belezas naturais.
Ao longo do século vinte, Cartagena havia sido um cenário fundamental para o desenvolvimento do cinema e da cultura colombiana. A cidade, além de disputar com Bucaramanga a sede da primeira projeção cinematográfica no fim do século XIX, experimentou a princípios do século XX uma reativação econômica que a tirou da prolongada prostração demográfica e econômica derivada dos sucessos independentistas do século XIX.
Desde muito cedo, com o concurso do empresariado local, se abriram salas de cinema, em principio primitivas e incomodas, que logo, com o curso do tempo melhoraram sua capacidade e influencia no marco da sensibilidade urbana local.
O cinema colombiano e o cinema latino americano compartem uma das dificuldades centrais do desenvolvimento da maioria dos cinemas nacionais. A ausência da promoção e divulgação de realizadores e obras, o conhecimento e reconhecimento dos públicos de seus próprios países e a falta de um mercado nacional que permita a sobrevivência e expansão do cinema nacional como indústria, faz do festival de cine um cenário especial não só para enfrentar, em forma crescentemente exitosa, tais problemas comuns à cinematografia da área, senão para procurar em especial o desenvolvimento industrial do cinema colombiano.
Fragmento de "Historia del Festival de Cine de Cartagena"
por Manuel Lozano

traduzido por  Rubens Lopes

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Dí buen día a papá



O Circuito de Cinema Latino Americano e Caribenho Alí Primera encerra o sétimo ano de atividades com o filme: Dí buen día a papá, filmado entre maio e junho de 2004 na cidade de Vallegrande e La Higuera, na Bolívia. Conta a historia de uma família vallegrandina, seus amores, conflitos e reconciliações durante os 30 anos transcorridos entre a guerrilha de Che Guevara em 1967 e a exumação de seus restos mortais em 1997.

Dí buen dia a papá não pretende contar a história do Che, senão a história dos habitantes de Vallegrande. O filme apresenta-o como um personagem unidimensional e mítico, despojado de suas conotações políticas e revestido das qualidades sobrenaturais que os moradores lhe conferem. A intenção do filme não é contar a vida de Che nem justificar, embelezar ou julgar sua passagem pela Bolívia.

A função dramática de Che nesta história é a de um personagem catalizador e por tanto aparecerá só em três momentos do filme. No primeiro, o Che é um cadáver que chega o céu e é exposto ante os olhos assombrados dos vallegrandinos. No segundo, é um esqueleto que é achado em uma fossa comum no aeródromo do povoado. E no terceiro, o Che é um “almita” das tradições andinas: um ser que, morto fora de seu tempo, vaga pelo mundo servindo de intermediário entre os vivos e os mortos.


Sessão Circula IELA

Filme: Dí buen día a papá (audio em espanhol sem legenda)
Quando: Quarta-feira (04), 18:30h
Onde: Auditório do CSE - UFSC



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Continua a Sessão: Povos Originários


O Circuito de Cinema Latino-Americano e Caribenho Alí Primera apresenta o filme Evo Pueblo para mostrar a Bolívia atual e contextualizar o processo histórico desse país que criou o Estado Plurinacional. Será no dia 06 de novembro no Auditório do CSE ás 18:30h. Convidamos toda a comunidade, estudantes e professores para participarem.



Evo Pueblo

O filme narra várias passagens da vida do atual presidente boliviano Evo Morales. Evo foi pastor de ovelhas e estudante da escola de Orinoca, Oruro, onde fez suas primeiras amizades. Muito jovem , aos 17 anos, se mudou para a cidade. Para sobreviver teve que trabalhar de ladrilheiro, padeiro e trompetista na banda de música imperial. A pobreza e continuas secas eno campo obrigaram a família Morales Ayma a migrar até o trópico cochabambino. Na zona do Chapare, Evo se converterá no máximo dirigente cocalero para depois ser deputado e ganhar nas eleições presidenciais de 2004, com mais de 54% dos votos.
Filme: Pueblo
Direção: Tonchy Antezana
Ano: 2007
País: Bolívia
Duração: 102 min.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Sessão Povos Originários com o documentário "Arawete"


O Circuito de Cinema Latino Americano e Caribenho Alí Primera inicia a Sessão: Povos Originários com o documentário Araweté, do diretor Murilo Santos. Um olhar sobre o povo tupi da Amazônia que vive às margens do igarapé Ipixuna, no médio Xingu, mostrando a cosmologia, a vida na floresta, um histórico do contato com outros índios, com os brancos e a vida na aldeia. Após a exibição do documentário haverá um debate com o secretário da Comissão Nhemonguetá, Cristiano Mariotto (Kure).
 

Direção: Murilo Santos

Áudio: Tupi e português

Ano de produção: 1992

Duração: 28 min.

 

Quando: 09/10/2013

Onde: Auditório do CSE

Horário: 18:30

ENTRADA GRATUITA

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A Bolívia vive sua hora histórica

por Elaine Tavares - jornalista
02 de Junho de 2005

 
 
 
Já se estende por mais de duas semanas a onda de protestos que vem incendiando a Bolívia desde o dia em que o presidente Carlos Mesa decidiu aprovar a Lei dos Hidrocarburos sem contemplar a reivindicação dos movimentos de camponeses e trabalhadores do país.
Os grupos organizados querem que a exploração do gás seja nacionalizada e que as populações originárias tenham o direito de domínio sobre seus territórios.
Este já é o segundo levante significativo dentro do governo Mesa e é bom lembrar que foi o povo em rebelião quem permitiu que o atual presidente governasse, uma vez que Sànchez de Lozada, o presidente eleito e do qual Mesa era vice, foi deposto pela mesma gente, em outro levante em 2004. O que é a Bolívia
Para entender todo o processo que hoje vive a Bolívia é preciso fazer um breve retorno na história, contextualizando estes fatos que aparecem na mídia como "mais uma rebelião". Não é bem assim. A história dos povos que constituem a Bolívia é cheia de beleza e pontuada por grandes lutas que visam manter sua cultura e sua soberania.
O território que atualmente compõe o país foi constituído em 6 de agosto de 1825 nas chamadas guerras de libertação do Alto Peru e levou esse nome em homenagem a Simón Bolívar, um dos mais importantes líderes desse movimento. Antes disso, o espaço geográfico boliviano foi, por 300 anos, parte da grande extensão da colônia espanhola.
Mas, ocorre que quando os espanhóis ocuparam as terras do que hoje é a América do Sul, elas já eram desde há muito habitadas. A região da Bolívia, por exemplo, era o espaço de vida de importantes culturas autóctones tais como a Viscachanense, a Ayampitinense, a Chiripa, a Wancarani, a dos Urus e particularmente a Tiwanacota, caracterizada como o primeiro Império Andino, florescido bem antes dos Incas e em cujos domínios se construiu a primeira cidade planejada da região: Tiwanacu.
Não é á toa que, apesar de todo o processo de destruição levado pelos espanhóis, esses grupos culturais sobreviveram e hoje (agrupados em duas grandes nações: a Aymara e a Quéchua) se constituem como maioria no país perfazendo mais de 68% da população.
Foi em 1544 que a grande tragédia dos povos que ocupavam o território da hoje Bolívia teve seu auge. Era descoberto pelos espanhóis o cerro de Potosí, lugar de onde seria retirada toda a prata e muito da vida daquela gente, então escravizada pelos invasores. Desde esse tempo, as populações autóctones lutam para recuperar a sua liberdade e sua soberania. Nunca, em tempo algum, os espanhóis governaram em paz.
As sublevações eram freqüentes e nem a igreja conseguiu quebrar a santa rebeldia do povo do lugar. Mesmo aceitando - sob coação - a fé cristã, as pessoas iam sincretizando e guardando, nos chamados "festejos folclóricos", a essência de suas crenças e de sua cultura. E foi esse espírito guerreiro que fez com que, quando explodissem as lutas de independência, a gente da região da Bolívia entrasse de cabeça e fizesse acontecer a quebra dos grilhões que a prendiam à Espanha. A liberdade sempre foi perseguida com força e determinação. Inumeráveis foram os levantes dos povos autóctones durante o tempo de dominação.
Já em 1809, um levante em La Paz - quando o povo invadiu a intendência e botou para correr o representante espanhol - colocava fogo naquele que seria o estopim da libertação. Logo em seguida, liderados por comandantes autóctones (tais como Cáceres e Pumacahua), se ergueram Potosi e outras cidades importantes. Finalmente em 1824, a partir da batalha vitoriosa de Simón Bolívar, o Alto Peru estava livre do jugo espanhol e vários países foram criados, entre eles a Bolívia.
Sem Espanha, mas com o latifúndio
A alegria pela libertação da Espanha não durou muito para as gentes da região da Bolívia. Tão logo o chamado Alto Peru foi sendo fatiado em países, as lutas internas pelo poder iniciaram e envolveram outra vez as comunidades. Não foram poucas as lutas e muitos os mortos. Ao final, venceram os latifundiários, os coronéis, os caudilhos, que, aos poucos, foram tomando conta do mando e jogando as populações autóctones outra vez para a miséria. A promessa de um tempo de liberdade não se cumpriu.
Durante todo esse período as comunidades mantiveram acesos a luta e o desejo de serem soberanas em seu espaço de vida. Mas, nunca foi fácil. O latifúndio seguiu impondo sua pauta apesar das inúmeras sublevações, e o início do século XX foi marcado pelo período de mando militar. É certo que muitos deles tinham um caráter nacionalista/popular e eram inclusive apoiados pelo povo, mesmo assim, até os mais bem intencionados não conseguiram dar conta das demandas exigidas pela população.
Na Bolívia, houve períodos de repressão em que até as músicas e folguedos autóctones eram proibidos, mantendo-se assim a até os anos 70. Havia todo um desejo de se apagar da memória a cultura e o passado guerreiros de toda aquela gente. Só que essas ordens nunca foram seguidas. No segredo, nas revoltas e nas sincretizações eles mantiveram sua história e seu sonho de liberdade.
Foi no ano de 1951 que a Bolívia viveu seu período mais bonito. Depois de anos sob as botas militares e várias revoltas populares, as gentes elegeram Victor Paz Estessoro, com uma plataforma altamente libertadora para aqueles tempos. Os militares tentaram impedir o novo governo, mas os bolivianos foram para as ruas em uma revolta histórica, com mineiros e camponeses armados, e conseguiram manter Estenssoro. No cargo até 1964 ele fez reformas importantes, nacionalizou as mineradoras, garantiu direitos aos povos autóctones, criou organizações trabalhistas e instituiu o voto universal.
Em 1964, tal e qual no Brasil, a Bolívia mergulhou outra vez na lógica dos governos militares, bem dentro da idéia de freamento das lutas e conquistas populares, imposta pelos Estados Unidos. Era um tempo em que os governos de caráter mais progressivo precisavam ser cortados pela raiz. O governo de René Barrientos, o mesmo que matou Che Guevara, apesar de apoiado pela maioria do povo, foi quem garantiu o desmonte da organização popular mais radical que estava em ritmo de crescimento.
Depois, a Bolívia passou por tempos críticos como os do governo de Hugo Bánzer, quando o país viveu quatro anos em estado de sítio. Tudo porque as gentes não se deixavam vencer por governos de força. Trancar as estradas com pedras e fazer gigantescas marchas fez e faz parte da resistência atávica do povo boliviano.
Em 1985 Paz Estenssoro volta ao poder e as esperanças se renovam. Mas, seu terceiro governo - que vai até 1989 - principia a pender para a lógica neoliberal que começa a apontar na América Latina e não avança na discussão de um poder popular e democrático. Seu ministro de planejamento era Sànchez de Lozada, que viria a ser presidente em 93.
Jaime Paz Zamora - que o sucede depois de uma espécie de "acordão" entre as forças políticas de direita e centro-esquerda - apesar de ter feito parte de vários processos de desmonte do então governo militar, acaba pendendo para a lógica social-democrata e não consegue avançar nas promessas de melhorias para o povo boliviano.
No ano de 1993 é a vez de assumir o comando do país um homem que sequer sabia falar a sua língua. Sànchez de Lozada, educado nos Estados Unidos, assume a presidência e durante os quatro anos que governa só consegue aprofundar o abismo entre pobres e ricos.
Em 1997 o poder volta para as mãos de Hugo Banzer que não chega a terminar o mandato em função de sua morte. Em 2003, numa disputa com Evo Morales, da comunidade aymara e do Movimento ao Socialismo, Sànchez de Lozada vence as eleições, embora pouco esquente a cadeira. Em mais uma das revoltas promovidas pelo povo - desta vez por conta da nacionalização do gás e da soberania das comunidades autóctones - Lozada é deposto assumindo então, o seu vice, o jornalista Carlos Mesa.
O conflito hoje
Como se pode perceber, a queda de braço entre governantes e população não é de hoje na Bolívia. A história mostra que o povo não mede esforços para fazer valer aquilo que pensa ser melhor para si. Desde 1825, quando se libertou da Espanha, o país já passou por quase 200 golpes de estado ou deposições de presidente.
Sua política é marcada por levantes populares violentos e decisivos. Os povos autóctones, os camponeses, os trabalhadores urbanos e os estudantes param o país, trancam as ruas e estradas, invadem palácios, enfrentam fuzis. O mistério que fica insolúvel se resume na pergunta: por que, com tanta força de mobilização, o povo da Bolívia não toma o poder?
A guerra pela nacionalização do gás e o controle do petróleo ficou mais forte no segundo mandado de Goni - Lozada. Como o setor estava praticamente entregue nas mãos dos estrangeiros, a população decidiu que ou o presidente tomava as rédeas do país ou saia. Goni não resistiu e em 2004 foi deposto depois de vários dias de rebelião nas ruas. Em nome da "constitucionalidade", as gentes decidiram deixar que o vice assumisse o cargo com a promessa de que iria rever a lei do gás.
Há duas semanas, pressionado pelas multinacionais, pelos Estados Unidos e até pelo Brasil - que tem interesses pesados no país - Mesa aprovou a lei que vai de encontro aos interesses da população. Dramaticamente, o presidente foi à televisão se justificar dizendo que "as multinacionais mandam no país. Não podemos aprovar uma lei que lhes desagrade". Dava um recado simples: ou o povo aceitava perder um pouco ou tinha que se ver com os deputados que eram mais reacionários do que ele, Mesa.
A nova lei aumenta os impostos pagos pelas empresas, mas não atende a reivindicação de que elas deveriam pagar 50% de royalties pelo gás e pelo petróleo, e muito menos nacionaliza o setor. Com isso, Mesa atiçou os movimentos populares mais importantes hoje na Bolívia que são o MAS (Movimiento al Socialismo), a COB (Central Obrera Boliviana) e a comunidade de El Alto.
Nestes dias, mineiros, camponeses, professores universitários, gente de El Alto, enfim, a Bolívia inteira está de pé e pede a renúncia de Mesa. Agora ninguém mais quer saber dos royalties de 50%. Os gritos de ouvem são: "ni 30, ni 50. Nacionalización!". A paciência com as multinacionais chegou ao fim.
As divergências
Mas, apesar de as palavras de ordem serem de mudanças radicais, entre as organizações populares há muita divergência sobre o destino da rebelião. Há os que acreditam que Mesa pode seguir governando se tomar a atitude de nacionalizar o petróleo e o gás, ou quem sabe antecipar as eleições para que tudo siga na normalidade constitucional, e os que querem todo poder ao povo.
Lideranças como Evo Morales já estão sendo consideradas conciliatórias demais - porque defendia a continuidade de Mesa no poder - e já se percebe uma mudança no seu discurso por causa da força das gentes nas ruas. Os militantes do MAS em caminhada pelas estradas da Bolívia exigiram um posição mais dura.
A comunidade de El Alto é a mais radical, quer a expulsão das multinacionais, dos deputados, do presidente e a instalação de assembléias populares para organizar a tomada do poder. Evo Morales pede uma Assembléia Nacional Constituinte e os demais querem um Assembléia Popular no rumo do "que se vayan todos". Esse parece ser o grande embate hoje na Bolívia.
Há uma clara divisão entre duas forças: o governo, a elite, o parlamento e as multinacionais de um lado, e o povo pobre e trabalhador de outro, embora este esteja dividido no conceito de fim. Essa divisão pode, mais uma vez, levar a vitória da elite que, nessas horas, acaba ficando unida.
A idéia de uma Assembléia Nacional Constituinte parece ser a saída para os donos do poder, daí a revolta com a posição de Evo Morales. Segundo analistas bolivianos, nos jornais locais, essa proposta foi bem aceita por órgãos muito suspeitos como o Banco Mundial. Lógico. Se o povo boliviano aceitar essa armadilha, a vida volta ao normal e as forças políticas a serviço do capital têm todo tempo do mundo para se re-organizar e vencer as eleições.
Tudo muda para continuar como está. Para se ter idéia de como o poder se organiza, os Estados Unidos, através da USAID, estabeleceu o que chamam de Iniciativas de Transição na Bolívia e já investiram mais de quatro milhões de dólares nessas "trampas", inclusive tentando subornar lideranças da comunidade de El Alto, a mais radical nesse processo.
A sorte está lançada. Nas mãos do povo boliviano está o seu destino. Optar por uma Assembléia Popular, construída de forma libertária em cada comunidade do país pressupõe uma outra forma de poder, popular de verdade, vinda "desde abajo".
Seria o povo verdadeiramente no poder, os camponeses, as comunidades autóctones, os trabalhadores das minas, das cidades, os professores, enfim, aqueles que vêm resistindo desde há 200 anos, promovendo revoltas, rebeliões, revoluções e sempre cedendo ao poder instituído, às elites. Talvez esteja na hora de experimentar tomar conta do mando.
Quem sabe, numa construção local, que tenha a verdadeira cara da Bolívia, não seja possível construir formas novas de praticar o poder, coletiva, solidária, numa outra órbita cultural. Está mais do que na hora das gentes da Bolívia não voltarem das portas do palácio deixando-o para os de sempre. É hora de entrar e ocupar as salas, reformando toda o cenário e conduzindo o país para novos rumos.
Para que isso aconteça interesses terão de ser contrariados, mas isso faz parte do processo. Tal como acontece hoje na Venezuela, as elites bolivianas também não cederão tão fácil, com medo de perderem o osso para o que chamam de "bando de índios". Para isso já estão na contra-ofensiva organizando os chamados Comitês Cívicos em defesa do "estado das coisas e da propriedade".
O número de pessoas que tem aderido a esses chamados da direita não é pouco. Sempre há os que acreditam que melhor do que a liberdade é ficar protegido sob a asa de algum graúdo. De qualquer forma, os próximos dias deverão definir o destino da Bolívia. O povo unido já mostrou a força que têm e esta não é a primeira vez. Resta saber se essas força vai ser canalizada para a construção de um país livre, soberano, de democracia radical sob o controle dos trabalhadores e camponeses. A hora histórica é agora.